Não me
sai da cabeça a imagem da senhora que atendi um dia desses. Os
oitenta e poucos anos que traz consigo estampam o sofrimento de quem
parece que não fez outra coisa na vida. A sua voz, trêmula, em
agrura, nos poucos minutos em que a ouvi, narravam uma história que
a mesma, e nenhuma mãe, merecia passar. Ela falava: “Seu moço, eu
procuro não dá trabalho pra ninguém. O pouco que me oferecem eu já
fico satisfeita.” Essa senhora mora com o rapaz que ela colocou no
mundo, que me recuso a atribuir o nome de “filho”.
O dito cujo
toma conta dos dois benefícios que a mãe recebe e em contrapartida
oferece-lhe migalhas. Relega à sua mãe o pior sofrimento que uma
pessoa pode ter: o esquecimento e a ingratidão. A senhora me
relatava, fazendo os gestos que outrora fazia, da forma mais emotiva
possível, que “quando era pequeno ela cuidava, dava banho,
arrumava o cabelinho, passava um perfume, deixava cheirosinho,
barriguinha cheia e que agora recebia o tratamento da ingratidão”.
Nesse momento a vizinha que a acompanhava, por piedade e por
humanidade, já se emocionava ao lado. Confesso que tive que me
segurar para não me emocionar além do que já estava, na hora do
atendimento. Eu fico aqui a pensar de como o ser humano pode
demonstrar tanta crueldade com alguém que lhe deu carinho, amor,
alimento, proteção. Imagina, então, com alguém que nem conhece?
As vezes penso em nem sair de casa para não bater de frente com
algum “ser humano” desse tipo.

Triste saber que a educação não é a única coisa que forma o caráter de um ser humano. Triste ver a dor dessa mãe, que depois de tanto cuidar, não teve o mínimo de cuidado... Acho que deve doer muito ser humilhado e ver quem a gente tanto amou e cuidou, ser ingrato quando mais se precisa. Que a justiça de Deus se faça, que essa senhora consiga viver os anos que lhe restarem com dignidade!
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